nevou:
E no meio dessa confusão alguém partiu sem se despedir; foi triste. Se houvesse uma despedida talvez fosse mais triste, talvez tenha sido melhor assim, uma separação como às vezes acontece em um baile de carnaval — uma pessoa se perda da outra, procura-a por um instante e depois adere a qualquer…
“Com todo respeito, a forma como vivo a minha vida é problema meu.
“Em tantos milênios, os humanos nunca entenderam o amor. Quanto é físico, quanto está na mente? Quanto é acidente, quanto é destino? Por que casamentos perfeitos se desintegram e casais impossíveis prosperam? Não sei as respostas nem um pouco mais que eles. O amor simplesmente está onde está
“Tempos atrás eu tinha um certo vício de comer o canto da unha. Sabe aquele cantinho que incomoda, causa uma dorzinha e você fica louco para poder tirar com uma simples puxadinha com o dente? Então, eu fazia isso – as vezes ainda faço – até doer, até arder, até sangrar. Não me contentava com uma sangradinha não, o dedo tinha que estar jorrando sangue para que eu me sentisse satisfeita. E meio que era engraçado, porque a minha mãe vivia me enchendo o saco dizendo: “Tira o dedo da boca menina”, “Vou te entupir com remédios de verme” ou então “Qualquer dia desses isso vai te deixar com apendicite”. Apenas ria. Ai a gente cresce e passa a entender que existem outros tipos de vícios, vícios piores, vícios que dá vontade de voltar com os vícios antigos, vícios do tipo pessoa. E percebe o quanto era menos doloroso sentir aquela dorzinha do canto da unha do que perder alguém que tanto ama. Que deixar o dedo jorrar sangue era menos preocupante do que pensar se a pessoa que ontem era tudo, vai continuar sendo seu tudo amanhã. Que ouvir os gritos da minha mãe era mais agradável que os gritos do coração. E também até duvido que aquela apendicite que ela tanto me alertava, teria doído tanto quanto a dor da saudade de quem partiu e nunca mais voltou. É mãe, se você me visse agora, estaria era rindo do meu novo vício.